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quinta-feira, 16 de abril de 2015

O último folheto



Domingo. Tarde fria e opaca. Errante o vento minuano soprava e os céus acinzentados cobriam a cidade quase sem vida.
O filho achegou-se ao pai e disse: Hoje é o dia de entregar os folhetos missionários na vizinhança. Ao que ouviu como resposta: Hoje está muito frio e um tanto chuvoso. De modo algum sairei para entregar folhetos. Além do mais, quem estará a perambular pelas ruas ou disposto a mostrar-se ao frio na porta de casa?
Desiludido, porém determinado, o filho pediu permissão ao pai e saiu para fazer a sua missão. Com grande esmero, a certo momento encontrou-se com apenas um folheto. A quem entregar? Deveras, o dia era de todo convidativo para beber um bom vinho com quase todo o corpo debaixo dos edredons.
Cruzando os quarteirões, o garoto deparou com uma casa velha onde parecia haver visto um vulto em seu interior. Bateu, bateu, porém ninguém atendia. Com o vento esbarrando em suas orelhas fazendo com que se encolhesse para dentro da gola do casado e com mais um pouco de insistência, uma anciã lhe atendeu à porta. Prontamente o jovem menino lha entregou o último folheto dizendo: Eu só queria te entregar este folheto.
Passada aquela semana, no domingo seguinte pai e filho encontravam-se na igreja. O pastor interrogou se havia algum visitante naquele dia. Um pouco tímida, lentamente se levantou uma senhora que disse: Eu estou aqui pela primeira vez. E isso graças aquele menino – exclamou apontando para o garoto que lhe entregara seu último folheto. Sou velha, sozinha, sem qualquer expectativa e nunca encontrei a verdadeira razão de viver. Estando eu com a corda ao pescoço, pronta para tirar-me a vida, a porta foi batida e aquele jovem me fez conhecer o amor de Deus em Cristo Jesus. Descobri que Jesus é a razão de viver. E aqui estou para servir ao meu salvador.

A minha Palavra não volta vazia. (Is 55.11)

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Mensagem 2º domingo de Páscoa B 2015



Igreja Evangélica Luterana Cristo – Juína
Pr. Edenilson Gass
Sl 148; At 4.32-35; 1Jo 1.1-2.2; Jo 20.19-31 – 2º domingo de Páscoa B 2015
Jesus nos livra da dúvida e do medo
v. 19: “Ao cair da tarde daquele dia, o primeiro da semana, trancadas as portas da casa onde estavam os discípulos com medo dos judeus, veio Jesus, pôs-se no meio e disse-lhes: Paz seja convosco”!
Você já teve medo? Você já teve dúvidas? A pergunta melhor é: quem não teve? O medo e a dúvida são sentimentos até comuns, mas também tão fortes que, muitas vezes, nos sentimos até como se estivéssemos aprisionados, de mãos atadas; acorrentados em meio a uma realidade que parece não nos dar escolha. O desespero de não fazer nada quer nos levar a agir, mas o medo das consequências logo nos faz voltar atrás.
Talvez era assim que os apóstolos estavam se sentindo depois da crucificação de Jesus. Sem o nosso Mestre, o que vamos fazer? As mulheres já vieram dizer que Jesus ressuscitou. Mas, quem acredita nas mulheres?
Com medo do que os judeus ou mesmo outros poderiam fazer a eles e com mil e uma dúvidas sobre a morte e ressurreição de Jesus, os discípulos preferiram ficar trancados dentro de casa.
Não somos diferentes dos discípulos. Também somos humanos; também sentimos medo e dúvidas. E assim como eles se prenderam naquela ocasião, assim também nós, muitas vezes, nos trancamos diante das coisas que não sabemos como lidar.
É o sofrimento de pais que fazem de tudo pelo bem e pela educação dos filhos, mas não veem nenhum resultado. Sentem-se de mãos atadas, afinal, já tentaram agir e parece que não adiantou nada.
É a situação daquele jovem cristão que olha o mundo ao seu redor, tão diferente, com outros costumes, com outros valores e não sabe exatamente como se portar. Se ir “na onda” da maioria, vai ir contra sua própria consciência; se não ir, pode ser excluído do seu próprio círculo de amizade.
Seja qual for a situação, o certo é que no medo e na dúvida nós devemos sempre voltar para Deus e colocar diante dele aquilo que nos incomoda e nos angustia e pedir que ele abra nossos olhos para fazer a coisa certa.
O problema é que nem sempre nós fazemos isso. Ou tentamos resolver o problema sozinhos, ou nos achegamos a Deus em tom de indignação e reclamação como se, em última análise, Deus fosse o grande culpado por permitir essas coisas.
Provavelmente uma das maiores ironias na Igreja é que muitos cristãos, quando precisam enfrentar problemas e dificuldades, imediatamente recorrem a especialistas da saúde (médicos, psicólogos, etc.). Não que tenha algo de errado nisso. Mas quando confiamos mais nos nossos especialistas do que no grande especialista da vida, aquele que nos deu a vida e conhece até o mais íntimo do nosso ser, então estamos perdendo a chance de receber o tratamento certo.
Ou então damos uma de Tomé. Desvinculamo-nos do grupo e tentamos resolver as coisas por conta própria. O apóstolo Tomé é muito conhecido pela sua incredulidade, mas o primeiro erro dele foi se desvincular do grupo. Ele não teve medo dos judeus como os outros tiveram, mas, nas suas dúvidas, estando com os pensamentos confusos, saiu para procurar por respostas sozinho.
Todos nós, em algum momento, sofremos essa mesma tentação. E aí você vê gente que, ao enfrentar os seus medos, ao invés de compartilhar isso com a igreja e pedir, pelo menos, por orações, se afasta sem dizer nada e, como se fosse um último guerreiro, vai para a batalha sem ninguém.
E, cá entre nós, se não estamos dispostos nem mesmo a cuidar uns dos outros, então temos mais que fechar as portas e ir embora. Mas isso é assunto para um outro dia.
Agora, o que podemos aprender com tudo isso é que nós nos prendemos em casas que nós mesmos criamos. A pessoa que se preocupa por antecipação, o aluno que fica nervoso para fazer uma prova, alguém que tem medo de falar em público. Esses são alguns exemplos de prisões que nós mesmos criamos.
Aprisionamo-nos em nossos medos, nas nossas dúvidas, inseguranças e acabamos sofrendo sem necessidade. E esse é um grande risco também na vida cristã. E, seja por medo, seja por dúvidas, vivemos uma fé aprisionada que nem sempre carrega a vontade de Deus nas nossas palavras e ações.
E isso é natural do ser humano. Por natureza somos medrosos e, acima de tudo, incrédulos. Mas graças a Deus existe uma boa notícia. A boa notícia de que Jesus veio mudar essa realidade. Assim como ele veio até os discípulos quando eles se encontravam presos na casa dos seus medos, assim ele vem a nós para nos libertar de tudo o que nos aprisiona.
Em primeiro lugar, ele nos livra da incredulidade quando nos dá a fé. Não estamos mais presos no pecado e o pecado mesmo não tem mais poder sobre nós. E isso porque agora podemos crer que Jesus tomou sobre o nosso pecado e o venceu por nós. Agora podemos crer que somos aceitos por Deus porque essa é a paz que Jesus veio trazer: a paz com Deus; o perdão dos nossos pecados; a certeza da salvação.
Em segundo lugar, ele nos livra do medo. Não que agora não vamos mais ter medo. Na enfermidade, nas decisões difíceis, o medo vai estar presente. Mas já não vai mais ter domínio sobre nós. Podemos enfrentar os nossos medos porque Jesus também vai estar presente.
Quando a ansiedade e a preocupação nos sobrevêm, podemos confiar que Jesus vem até nós. E porque Jesus está presente, nós podemos seguir em frente. Quando Jesus apareceu aos discípulos e lhes mostrou as marcas nas mãos e no lado, o texto diz que eles se alegraram e então saíram daquela casa. Nós também podemos nos alegrar e sair da casa onde nos prendemos.
Seja isso para o viver do dia-a-dia como para o viver cristão. Claro que não tem como separar as duas coisas. A vida cristã se mostra justamente no dia-a-dia. E porque Jesus está presente e nos traz a paz e o perdão de Deus é que temos agora a liberdade de servir a Deus, fazendo a sua vontade em qualquer lugar, em qualquer situação.
Essa nova vida de serviço no reino de Deus só é possível ao que crê no salvador Jesus Cristo e no seu perdão. Por isso, Jesus enviou os apóstolos a anunciar esse perdão. E, se somos também seus discípulos, então também somos enviados a fazer o mesmo.
Jesus diz: Assim como eu fui enviado pelo Pai para trazer e mostrar que o perdão de Deus é uma realidade a todos os que creem em mim, assim também eu envio vocês a levarem esse perdão, crerem nesse perdão e viverem esse perdão.
Por que temer ou duvidar, se Jesus está com a gente? Por que nos escravizarmos quando somos livres? Os apóstolos estavam presos naquela casa. Qual é a casa em que você está preso e que lhe impede de sair e crer, viver e anunciar o perdão de Deus?
Todos nós já passamos por momentos de medo e de dúvida. Todos já nos sentimos ou ainda vamos nos sentir de mãos atadas. Por isso precisamos sempre lembrar que em qualquer situação, Jesus está presente. E precisamos confiar nisso com todas as nossas forças.
Nas prisões da vida, é preciso lembrar que em Jesus nós somos livres. Jesus nos livrou da incredulidade. Jesus nos livra do medo. E nos ajuda a viver no caminho que leva ao céu. Por isso, em toda e qualquer situação, no medo ou na dúvida, nós podemos dizer junto com o salmista: Clamei ao Senhor e ele me atendeu. Louvado seja o nome do Senhor. Amém.

sábado, 4 de abril de 2015

Mensagem Domingo de Páscoa B 2015



Igreja Evangélica Luterana Cristo – Juína
Pr. Edenilson Gass
Sl 16; Is 25.6-9; 1Co 15.1-11; Mc 16.1-8 – Domingo de Páscoa B 2015
Jesus ressuscitou – a mensagem da Páscoa
v. 6: “Ele, porém, lhes disse: Não vos atemorizeis; buscais a Jesus, o Nazareno, que foi crucificado; ele ressuscitou, não está mais aqui; vede o lugar onde o tinham posto”.
Todos nós lembramos daquele desabamento que aconteceu no Chile em 2010 e deixou 33 mineiros presos no subsolo a mais ou menos 700 metros de profundidade. Eles ficaram lá por mais de dois meses. Todos acompanhamos todo o processo de resgate, a angústia dos mineiros: será que vamos sair daqui? Quanto tempo isso vai durar? E, finalmente então, a salvação, quando outras pessoas desceram até eles e os tiraram daquele poço de ansiedade.
Mas hoje é Páscoa. E com certeza ninguém quer saber de notícia triste. Embora a mensagem da Páscoa seja mais ou menos como o resgate daqueles mineiros.
E texto é Mc 16.1-8. Ele tem uma ordem bem lógica e clara. Então nós vamos seguir essa ordem mesmo.
O versículo 1 diz que “passado o sábado” – provavelmente, então, às seis horas da tarde de sábado – “Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, e Salomé compraram aromas” para embalsamar o corpo de Jesus, conforme o costume daquele contexto.
Vocês não acham maravilhoso como as Escrituras Sagradas dão testemunho da veracidade daquilo que elas dizem? Vejam os detalhes, as informações. A Bíblia fala de nomes de pessoas, normalmente acompanhados ainda pelo sobrenome, pela profissão ou pelo lugar de origem. A Bíblia fala de lugares específicos que estão aí até hoje. Não são nomes fictícios, são nomes reais de lugares reais. Além disso, o que a arqueologia já descobriu de ossuários, artefatos, objetos que nos remetem diretamente aos lugares e aos relatos que nós encontramos na Bíblia.
Há quem diga que não se pode acreditar na Bíblia porque ela é só um livro como qualquer outro. Mas a verdade é que quanto mais você estuda sobre a Bíblia, mais certeza você tem de que ela é a única e verdadeira Palavra do único e verdadeiro Deus. E esta Palavra é a que hoje nos fala da ressurreição de um homem que garante a nossa ressurreição no último Dia para a vida eterna.
Agora, nos versículos 2 e 3 a gente encontra uma situação interessante também: No outro dia bem cedo as mulheres vão ao sepulcro com os aromas para embalsamar o corpo de Jesus. E no caminho elas se perguntavam: “Quem nos removerá a pedra da entrada do túmulo?”
A maneira do texto dizer isso pode significar que essa pergunta era feita constantemente, durante todo o caminho. Ou seja, essa era a grande preocupação delas. Mas aí vem o detalhe interessante: mesmo assim elas foram.
Quantas pessoas você conhece que só de pensar na pedra que vai ter mais adiante já param de caminhar agora? Desistem daquilo que tanto sonhavam só de pensar que no caminho vão haver obstáculos. Ou então já ficam ansiosas desde agora por coisas que podem nem acontecer.
E no campo espiritual e religioso; como isso acontece na igreja também onde alguns parece que só enxergam as pedras. – Não, isso não vai dar certo; vai faltar gente, vai faltar dinheiro; o resultado não vai ser como a gente espera. E, assim, lá se vão embora muitas e grandes oportunidades de estudo, de comunhão, de missão e de trabalho no reino de Deus.
Essa trajetória das mulheres até o sepulcro parece uma referência muito apropriada para a nossa caminhada na fé. Por vezes, nós fraquejamos, duvidamos, questionamos, nos preocupamos, mas a graça de Deus nos faz ir em frente. Caminhar na fé é confiar na bondade e no cuidado de Deus mesmo quando tudo indica que no final não vai dar certo.
E por esta fé é que nós cristãos podemos seguir em frente e encarar as pedras da vida. Sejam as que obstaculizam os nossos sonhos como aquelas que atrapalham o nosso crescimento individual e coletivo no reino de Deus.
E, de fato, aquelas mulheres perderam preciosos minutos de alegria se preocupando à toa, porque Deus solucionou o problema delas. Quando chegaram lá, eis que a pedra estava removida. Porém a surpresa maior com certeza foi quando entraram no túmulo e não viram Jesus, mas um anjo.
E, assim como no nascimento de Jesus, as primeiras palavras desse anjo foram: Não temais! A mensagem da ressurreição não é para ser mensagem de medo ou espanto, mas de alegria, de louvor e de gratidão.
As poucas palavras do anjo também dão um ar de pressa. Algo precisa ser feito e rápido. O anjo não dá toda uma aula de teologia do Antigo Testamento para lembrar às mulheres aquilo que elas tinham esquecido das Escrituras: Que o salvador haveria de morrer, mas também traria a vida eterna. No máximo ele diz que o próprio Jesus tinha dito que iria ressuscitar.
– Vocês procuram a Jesus, o Nazareno, o crucificado; ele ressuscitou, não está mais aqui como vocês podem ver. A mensagem da Páscoa, que é a mensagem do Evangelho, da salvação, da vida eterna não precisa ser muito elaborada, só precisa ser anunciada.
E assim como as mulheres não precisaram de nenhuma aula do anjo para anunciar a ressurreição de Jesus (embora tenham demorado um pouco), assim também nós somos enviados para anunciar esta mensagem: Jesus ressuscitou! E daí vem a certeza da nossa ressurreição e da vida eterna a todo o que nele crê.
Por isso, só restava ao anjo dizer “ide, dizei a seus discípulos”, anunciem que mais uma verdade das Escrituras hoje se cumpriu.
Aquele incidente no Chile, em 2010 foi o alvo de toda a atenção e todos os esforços foram feitos para que todos os detalhes chegassem ao conhecimento de todos. Não se falava de outra coisa. Mas e hoje, quantos ainda falam ou lembram daquilo? Nesse mundo apressado, onde o que é da semana passada já é velho. Queremos sempre notícias novas.
E a mensagem da cruz e da ressurreição? Qual é o impacto que ela tem sobre nós? Será que ainda a valorizamos e unimos esforços para anunciar esta mensagem ou já é mensagem velha que ninguém mais precisa saber?
Lembremos que nunca existiu, nem existe, nem vai existir mensagem mais atual do que a mensagem da Palavra de Deus. Porque esta é mensagem de esperança. É mensagem que nos alegra e que nos faz ter ansiedade por uma só coisa: entrar nos céus.
Mensagem de um coelho que bota ou fabrica ovos de chocolate pode até alegrar as crianças, mas não traz consolo nem esperança para quem enfrenta as cruzes desta vida e espera ansiosamente por um final feliz.
Anunciemos que todos nós éramos como os mineiros chilenos, presos na profundidade do nosso pecado, sem qualquer opção a não ser esperar pelo resgate e o resgate veio. Jesus desceu abaixo de nós, até o mais profundo abismo do inferno na sua Paixão e morte, mas agora subiu novamente, ressuscitou e, assim, nos levou do lugar mais fundo para o lugar mais alto: a presença de Deus e a esperança de estar com ele nos céus.
Eis a salvação! E ela está ao alcance de todos. Ela é para todos! Não vamos fazer como as mulheres que, de medo, não falaram nada por algum tempo. Muito pelo contrário, essa semana, mesmo que seja atrasado, deseje às pessoas uma feliz Páscoa. Mas deixe claro que não é a Páscoa do coelhinho – o que, aliás, nem é Páscoa. Mas uma feliz Páscoa porque Jesus ressuscitou e, nele, nós temos vida que não tem fim. Amém.

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Mensagem Sexta-feira Santa B 2015



Igreja Evangélica Luterana Cristo – Juína
Pr. Edenilson Gass
Sl 22; Is 52.13-53.12; Hb 4.14-16; 5.7-9; Jo 18-19 – Sexta-feira Santa B 2015
Cristo, o exemplo dos mártires e da Igreja Cristã
Cap. 18, v. 11: “Mas Jesus disse... não beberei, porventura, o cálice que o Pai me deu?”
No dia 15 de fevereiro, toda a Igreja Cristã voltou os olhos para a Líbia onde vinte e um cristãos coptas foram mortos por ordem do Estado Islâmico. Em 17 de janeiro, sete igrejas foram queimadas no Níger. Janeiro de 2013: Perseguição à Igreja Cristã na Coréia do Norte se intensifica. Uma outra reportagem também diz que, em 2012, metade do número de pessoas mortas por motivos religiosos aconteceu na Nigéria, onde mercenários muçulmanos recebiam US$ 43,00 por cada cristão morto.
E ainda, só para termos uma noção mais geral sobre a perseguição cristã no mundo, o site persecution.org diz atualmente que cerca de 200 milhões de cristãos sofrem perseguição. E uma reportagem do Vaticano constatou que mais de cem mil cristãos são mortos todos os anos, fazendo uma média de uma morte a cada dez minutos. O motivo na grande maioria desses casos: ser cristão.
Os números são realmente assustadores e nós não podemos fazer de conta que isso não nos diz respeito. São milhares de irmãos e irmãs na fé que diariamente são perseguidos, torturados, mortos por confessarem a sua fé cristã enquanto nós vivemos em um país onde temos plena liberdade religiosa e todas as oportunidades de testemunhar a nossa fé. Temos, no mínimo, o dever de orar por essas pessoas.
Seja como for, a pergunta que não cala é sempre a mesma: Por que Deus permite? Por que Deus permite que os seus filhos sejam perseguidos, rejeitados, torturados e mortos? Na verdade, muitos cristãos só não encontraram a resposta a esse tipo de pergunta porque ainda não abriram a Bíblia para procurar por ela.
Quando Jesus estava reunido com os apóstolos, conforme o evangelho de João, capítulo 15, versículo 20, ele disse: “Não é o servo maior do que seu senhor. Se me perseguiram a mim, também perseguirão a vós outros”. E essa é a razão porque Pedro escreveu na sua primeira carta o seguinte: “Amados, não estranheis o fogo ardente que surge no meio de vós... como se alguma cousa extraordinária vos estivesse acontecendo”; “Porquanto para isto mesmo fostes chamados, pois que também Cristo sofreu em vosso lugar, deixando-vos exemplo para seguirdes os seus passos” (1Pe 4.12; 2.21).
O cristão, por estar unido com Cristo Jesus, automaticamente acaba compartilhando também do seu sofrimento. Quando um cristão sofre, Pedro diz, não pensem que isso é uma coisa estranha. Estranho é quando o cristão não sofre porque existe a grande possibilidade de ele não estar vivendo e confessando a sua fé cristã.
Sim, Deus permite o sofrimento sobre o cristão. Só ele não faz isso como castigo, muito menos tem prazer no sofrimento dos seus filhos, Deus traz o sofrimento para nos manter na fé naquele que sofreu em nosso lugar. E quando, na sua eterna sabedoria, decide que alguém precisa morrer por esta fé para nos fortalecer no nosso testemunho e exemplo como cristãos, assim ele permite.
Há poucas semanas, em vista desses acontecimentos dos quais falamos há pouco, o Dr. William Weinrich, professor de um dos nossos seminários nos Estados Unidos, escreveu um artigo sobre o martírio cristão. E ali ele disse uma grande verdade que, às vezes, passa despercebida. Ele diz: Embora nossa teologia possa nos ensinar que estamos a viver a teologia da cruz, nossa experiência de sermos cristãos no mundo diz o contrário, afinal, muito pouco temos sofrido por sermos cristãos. E se isso não é uma verdade no mundo todo, pelo menos é em alguns lugares como o Brasil.
Numa linguagem bem coloquial, aqui no Brasil nós vivemos na mamata. É muito fácil ser cristão no Brasil e talvez até por isso que nós nos acomodamos tanto, porque é bom viver um discipulado sem cruz. Só que tem um problema: não existe discipulado sem cruz. A não ser que Deus, por sua bondade está nos poupando de sofrer, ou nós realmente não estamos vivendo e confessando a nossa fé.
E se essa é a questão, então nós estamos em grande perigo. Jesus diz assim: “Todo aquele que me confessar diante dos homens, também eu o confessarei diante de meu Pai, que está nos céus; mas aquele que me negar diante dos homens, também eu o negarei diante de meu Pai, que está nos céus” (Mt 10.32-33).
No mesmo artigo sobre martírio cristão, o Dr. Weinrich traz vários relatos de cristãos que morreram como mártires. A gente fica impressionado quando lê aquilo por causa da coragem dos mártires, pena que seria cansativo trazer todos os relatos agora. Mas pelo menos um deles merece a nossa atenção.
Vamos lembrar do que aconteceu com Perpetua, em Roma, por volta do ano 202. Mulher jovem, de família nobre, é convertida ao cristianismo. Quando acusada publicamente pelo governo romano de haver cometido o crime de crer em Jesus, o pai dela faz de tudo para que ela renegue essa fé: Pensa nos teus irmãos, na tua mãe, no teu filho. Por fim, o próprio governador pede que ela negue a sua fé para que não seja morta. Mas diante da pergunta “tu és cristã?”, ela responde christiana sum – eu sou cristã! Ela acaba de assinar a sua sentença de morte. Mas não nega a sua fé.
O que Perpetua fez não foi nada mais do que atender ao que Jesus ensinou: “Quem ama seu pai ou sua mãe mais do que a mim não é digno de mim; quem ama seu filho ou sua filha mais do que a mim não é digno de mim” (Mt 10.37).
Christianus sum não é uma mera declaração de que fulano de tal pertence a um grupo religioso cristão. Muito mais do que isso. É a maneira do mártir perguntar ao mundo: Quem realmente tem o poder para tirar ou dar a vida?
Aparentemente as autoridades têm esse poder. Afinal, a vida de Perpetua e de tantos outros estiveram nas mãos de governos terrenos que podiam tanto condená-los como salva-los. Mas não é assim. Eles podiam até ter o poder para tirar a vida – se Deus o permitisse – mas jamais teriam o poder para dar a vida.
A vida, o maior presente que Deus dá ao ser humano, está nas mãos de Deus. Só ele pode dar a vida. Por isso, na grande maioria das vezes, os mártires não enfrentavam as autoridades dizendo: Podem me matar, um dia eu vou ressuscitar. Mas eles diziam: Podem me matar, mas eu não posso negar aquele que é o Deus Criador.
Ou seja, eles não enfrentavam a morte firmados na ressurreição, o que seria, de certa forma, uma atitude egoísta. Eles enfrentavam a morte simplesmente porque Deus é seu Criador. Em outras palavras ainda: mesmo que não houvesse ressurreição, nem Juízo final, nem salvação, ainda assim as palavras do cristão mesmo diante da morte sempre devem ser “eu sou cristão”!
Ser cristão no mundo é estar em constante conflito. Aqui não há terreno neutro. Ou nossa vida é um sacrifício aos deuses deste mundo (dinheiro, prazer) ou ao único e verdadeiro Deus; ou estamos a confessar Cristo ou a nega-lo; prontos para viver ou para morrer.
No entanto, aquele que prefere viver do que confessar a sua fé cristã, entra na morte; mas o que prefere morrer do que negar o seu salvador, entra na vida. Como o próprio Jesus diz: “Quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á; e quem perder a vida por minha causa achá-la-á” (Mt 16.25).
E esta é a esperança do cristão: saber que, quer vivamos, quer morramos, somos do Senhor. Porque Deus não é Deus de mortos e sim de vivos.
O cristão precisa estar consciente de que tudo o que é deste mundo, por melhor que seja ou pareça, é temporário. Amar o mundo é amar o que é temporário e abrir mão daquilo que é permanente: a vida eterna.
Jesus é e sempre vai ser o nosso grande exemplo. Pois ele, apesar da tamanha dor que sentia, sempre de novo se colocava debaixo da vontade do Pai, mesmo que essa vontade implicasse em futura crucificação. Se era esse o cálice que o Pai lhe deu para beber, era esse o cálice que ele iria beber.
No século IV (quatro) Agostinho fez uma pregação lembrando aqueles que morreram como mártires. Entre eles, Perpetua. As palavras de Sto. Agostinho, daquela ocasião, com certeza são válidas para os cristãos de todos os tempos. Assim ele diz:
“Tu sentes bem-estar? Faze pouco caso disto, e tu haverás de tê-lo. Tu negas a Cristo, com medo de estragar tua amizade com os homens; confessa Cristo, e desfrutarás a amizade na cidade dos anjos, a cidade dos patriarcas, a cidade dos profetas, a cidade dos apóstolos, a cidade de todos os mártires, a cidade de todos os crentes fiéis.”
Agostinho disse essas palavras a pessoas que talvez não as entenderiam porque não sofriam perseguição. Assim como eu faço agora. Talvez essas palavras não tenham muito impacto nas nossas vidas porque não estamos a viver grandes perseguições. Mas por quanto tempo? E quanto aos nossos filhos e netos? O nosso ensino e exemplo têm sido para que eles aprendam a viver neste mundo, o que é importante. Mas temos nos dedicado a ensinar-lhes a Palavra de Deus de tal modo que eles prefiram morrer por ela do que viver sem Cristo?
Ninguém precisa temer nem desanimar. O Senhor da Igreja prometeu que nem mesmo as portas do inferno prevalecerão contra ela.
Os mártires não foram e nem são pessoas mais santas do que nós. Mas, sem dúvida, olhando para eles sempre sob a sombra da cruz de Cristo, podemos vê-los como exemplos de cristãos que, com robusta fé e vívida esperança alcançaram a coroa da vida eterna mediante a fé no salvador Jesus Cristo.
Possamos nós também estarmos determinados e engajados no trabalho no reino de Deus, procurando, com tudo o que somos e temos, nas nossas palavras e ações, testemunhar e confessar que Jesus morreu para a nossa salvação. E quando ele nos vier chamar para junto de si, estejamos a celebrar a vitória de Cristo sobre a morte. Amém.