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quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Mensagem 23º dom. após Pentecostes A 2014



Igreja Evangélica Luterana Cristo – Juína
Pr. Edenilson Gass
Sl 90.1-12; Sf 1.7-16; 1Ts 5.1-11; Mt 25.14-30 – 23º dom. após Pentecostes A 2014
Deus nos faz seus administradores
v. 14: “Pois será como um homem que, ausentando-se do país, chamou os seus servos e lhes confiou os seus bens”.
“Com tudo o que somos e temos a ti nos sagramos, Senhor”. O hino escolhido para ser o hino oficial da Liga de Servas Luteranas do Brasil traz palavras muito bonitas. Transmite o desejo de pessoas perdoadas, agraciadas, redimidas de servir a Deus com tudo o que são e com tudo o que têm.
Assim também, na parábola dos talentos que Jesus conta, ele fala de servos que se dedicaram completamente à tarefa de servir ao seu senhor. Cada um, agradecido pela oportunidade, trabalhou com daquilo que havia recebido do seu patrão. Mas um deles simplesmente não fez nada, o que nos leva a perguntar: Por que ele enterrou o seu talento? E qual era a motivação dos outros dois para se empenharem tanto?
Quando nós estudamos o 1º Artigo do Credo Apostólico, uma das primeiras coisas que nós aprendemos é que Deus é o Criador e o mantenedor de todas as coisas. Deus não apenas criou o mundo e o universo e depois foi embora, deixando tudo por nossa conta. Mas também é dele que vem, todos os dias, o nosso sustento e todo o necessário para o corpo e para a alma.
Por mais que o ser humano tenha a tendência arrogante de dizer que tudo vem do seu esforço, do seu trabalho e, por isso, naturalmente, não é grato a Deus por nada, a verdade é que, em última análise, tudo vem de Deus. Porque se temos qualquer saúde, habilidade, disposição, inteligência, que nos permitem levantar de manha e realizar os nossos afazeres é porque Deus nos tem abençoado com tudo isso.
E é isso que precisamos ter claro em nossa mente se queremos compreender a parábola dos talentos. Aquele senhor que confia os seus bens aos seus servos não é nada mais, nada menos do que Deus colocando aos nossos cuidados aquilo que é dele. “Tudo o que somos e temos” não é algo que nós conquistamos, mas é graça de Deus.
E Deus distribui daquilo que é dele conforme a sua sabedoria. O texto diz “conforme a capacidade de cada um”, mas isso não quer dizer que uns merecem mais do que outros. A questão é que Deus planeja para cada um de nós planos diferentes. Ele precisa de nós exatamente como somos e com o que temos para que possamos servi-lo da melhor maneira possível.
De forma que, mesmo aquele que tem menos pode se alegrar em Deus porque o pouco que tem já é graça. Aliás, ter pouco ou ter muito, são características que nós atribuímos. Diante de Deus ninguém tem nada porque tudo é dele.
E parece que Jesus falar de talentos nessa parábola é muito sugestivo. Porque o talento é uma moeda extremamente valiosa. Aquele que tem um talento já tem muito mais do que precisa.
Com isso Jesus mostra que Deus não é Deus de miséria. Ele sempre nos dá tudo o que precisamos e até mais. Nós é que, no nosso egoísmo e ganância, preferimos sempre olhar para aquilo que ainda não temos. E em vez de usar dos nossos talentos no reino de Deus, muitas vezes preferimos enterrá-los com medo de perder alguma coisa.
Mas a que se refere esses talentos? O que são os talentos que Deus distribui, que ele nos confia? Absolutamente tudo o que somos e temos! Tudo o que somos: corpo, alma, caráter, razão. Tudo o que temos: dons, bens, dinheiro, tempo, família. E não nos esqueçamos – nós, que somos Igreja: O Evangelho também está nas nossas mãos.
De tudo somos administradores, não donos. Isso não quer dizer que Deus não está mais cuidando de nós. Deus está sempre do nosso lado. Mesmo assim, ele nos deu uma certa liberdade. E nessa liberdade é que nós, muitas vezes, enterramos os nossos talentos como se fossem nossos e não de Deus. Como se não tivéssemos, um dia, de prestar contas de como administramos tudo o que Deus nos deu.
Que bom que, assim como Deus cuida de nós, ele também nos move pelo seu Espírito Santo a sermos bons administradores. Deus opera na nossa vida uma vida que seja agradável a ele.
E por essa ação contínua do Espírito Santo, é que somos movidos a cuidar de tudo o que somos e temos. E, com gratidão em nossos corações, dedicar, oferecer voluntariamente toda a nossa vida e o nosso coração ao nosso Deus.
É por isso que o patrão não dá nenhuma recomendação aos seus servos. Deus não quer que nós o sirvamos mecanicamente. Simplesmente fazendo isso ou aquilo. Jesus diz que Deus confia a nós os seus bens. É como se ele dissesse: Vocês são os servos em quem eu confio. Eu posso até me ausentar porque eu sei que vocês vão ser responsáveis. Vão ser bons administradores.
A nós cabe refletir: Como tem sido ou está sendo nossa administração? Temos sido agradecidos e usados nossos talentos no reino de Deus ou só no nosso próprio reino?
Infelizmente aqui, como em outras parábolas, nós nos deparamos com a ingenuidade de Deus. Deparamo-nos com um Deus que nos ama de tal maneira que espera de nós alguma resposta.
Precisamos estar cientes de que temos inimigos que querem de todas as formas impedir o nosso trabalho no reino de Deus: o diabo, o mundo e nós mesmos. Mas também cientes de que a fé no salvador Jesus Cristo não é coisa morta e que Deus Espírito Santo luta contra os nossos inimigos e nos leva a sermos bons administradores.
É assim que entendemos a diferença entre os dois servos e o último. Os dois primeiros são aqueles que tem fé e que pela fé conhecem a Deus. Quando recebem os seus talentos, sequer questionam o que é para fazer com aquilo. Simplesmente cuidam, administram sabendo que depois vão devolver a quem pertence.
O terceiro servo é que aquele que não crê. E por não crer não conhece a Deus. Vê Deus como um juiz severo, que ceifa onde não colheu e ajunta onde não espalhou. E, como consequência, não usa os seus talentos no reino de Deus. Guarda para si mesmo.
Em outras palavras, cada um tem Deus como o enxerga. Aquele que vê Deus como juiz vai ter em Deus um juiz. Só que o Deus juiz ninguém pode desejar. Porque ele não aceita desculpas pelas nossas falhas. Mas só condena os nossos erros.
Por outro lado, aquele que enxerga um Deus amoroso tem nele um Deus de amor. Um Deus que conhece as nossas falhas e os nossos pecados e mesmo assim nos ama.
O servo desse Deus sabe que já tem uma recompensa guardada. Ele não trabalha para ver se conquista alguma coisa de Deus. Nós não trabalhamos por isso. Nós, que conhecemos esse Deus de amor e misericórdia, sabemos que esse mundo, essa vida não é o fim em si. E se, mesmo assim, Deus já nos abençoa tanto, o que podemos esperar do que virá depois?
Que honra, que privilégio Deus nos dá de sermos seus administradores. De podermos usar daquilo que nós somos e temos no reino de Deus, para os planos de Deus. Sabendo que Deus não exige além do que ele nos permite dar. Mas atua em nós para que possamos cuidar de nós mesmos, do nosso próximo e da Criação até o dia em que ele nos chamar para as alegrias eternas. E é exatamente isso que nos motiva e nos alegra para servirmos ao nosso Deus “com tudo o que somos e temos”. Amém.

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Mensagem 22º dom. após Pentecostes A 2014



Igreja Evangélica Luterana Cristo – Juína
Pr. Edenilson Gass
Sl 70; Am 5.18-24; 1Ts 4.13-18; Mt 25.1-13 – 22º dom. após Pentecostes A 2014
Preparados pela fé
vv. 3-4: “As néscias, ao tomarem as suas lâmpadas, não levaram azeite consigo; no entanto, as prudentes, além das lâmpadas, levaram azeite nas vasilhas”.
Estar preparado. Como é importante estar preparado. Quantas situações acontecem em nossas vidas nas quais precisamos estar preparados? E como é complicado quando não estamos: Aquele filho que não estava nos planos do casal; aquela prova surpresa na instrução de confirmandos, na escola, na faculdade; aquela oportunidade de emprego que exige uma certa experiência ou um grau acadêmico. Esses são apenas alguns exemplos que mostram como é importante estar preparado.
Nós estamos em uma parte da Escritura onde Jesus nos apresenta várias parábolas e fatos que nos fazem pensar se nós estamos preparados. Por exemplo, se nós lermos o sermão profético no capítulo anterior em que Jesus nos aponta sinais do fim dos tempos.
Ou então a parábola da figueira, onde ele compara o juízo final com o episódio de Noé, em que as pessoas só acreditaram quando começou a chover e não parava mais. E o texto lido há pouco não é diferente e nos faz também pensar em vigilância, em estar preparado. Mas, afinal, preparado para quê?
O texto inicia falando de dez noivas que estavam à espera do seu noivo. É importante, para compreendermos bem este texto, saber que um casamento oriental, pelo menos naquela época, acontecia da seguinte forma: o noivo ia até a casa da noiva para recebê-la de seus pais. Então iam até a casa do noivo para a festa nupcial.
E Jesus diz no versículo 2 que “cinco dentre elas eram néscias, e cinco, prudentes”. As néscias ou tolas levaram consigo apenas uma lamparina, mas não tinham azeite de oliva guardado, que era o que mantinha a chama acesa. Já as prudentes, além da lamparina, tinham levado óleo para o caso da lamparina começar a se apagar.
Mas aconteceu que o noivo demorou um pouco mais do que o esperado e as noivas ficaram com sono e acabaram dormindo. Dali há pouco uma voz dizia: “Eis o noivo”. Então elas acordaram e imediatamente foram ao seu encontro. Mas as que foram desprevenidas ficaram sem óleo e a lamparina se apagou.
Foram, então, atrás de óleo, queriam comprá-lo. Bem quando saíram, o noivo chegou e levou consigo as cinco prudentes. Quando as outras cinco chegaram à casa do noivo já era muito tarde e o noivo as mandou embora dizendo que não as conhecia.
Meus irmãos, como em toda parábola, é preciso encontrar os pontos de comparação, ou seja, o que Jesus está querendo dizer com esta ilustração. Nesta parábola nós podemos considerar o seguinte: as dez virgens são a Igreja de Cristo; o noivo é o próprio Cristo; a chama da lamparina é a fé e o azeite, a Palavra de Deus, pois só o Espírito Santo pode manter acesa a chama da nossa fé; e a chegada do noivo se refere à volta de Cristo.
Com isso fica muito mais fácil nós compreendermos como, por que e para que nós precisamos estar preparados. E assim como nós nem sempre sabemos quando determinadas coisas podem acontecer, assim também não sabemos quando Jesus voltará e por isso precisamos estar sempre preparados.
Por falar nisso, há algum tempo, o jornal Correio do Estado trouxe uma reportagem sobre o pregador evangélico Harold Camping que previu que o mundo terminaria em 18 de maio de 2011. Não acontecendo, refez os cálculos e encontrou o dia 21 de outubro. Também não aconteceu nada.
Mas nós já estamos acostumados com esse tipo de especulação. O que mais chama a atenção é que tal proposição partiu de um pregador. É engraçado como alguém que fala da Bíblia não conhece a Bíblia, pois o próprio Jesus disse que ninguém sabe o dia nem a hora em que ele voltará.
Quantos já tentaram, por meio de especulações, adivinhar o dia do Juízo Final? No ano 2000 se falou tanto sobre isso. Depois começaram a falar de 2012. Lançaram filmes e livros – e nada! Mas o que a Bíblia nos diz é que este dia virá como um ladrão: quando menos se espera.
E quando se fala em preparação muitos acreditam que estar preparado é ter um grande acúmulo de boas obras; outros, no outro extremo, acham que ninguém precisa se preocupar porque no final das contas todo mundo vai para o céu
Isto é não levar estoque de azeite. Só Deus pode reabastecer a nossa lamparina. E no momento em que eu começo a olhar mais para mim do que para Deus e não fazer como Davi, no salmo de hoje, que implora pela ajuda de Deus, eu estou impedindo que o Espírito Santo reponha o meu estoque para que a chama da fé se mantenha acesa.
Uma lamparina sem azeite não serve para nada. Assim também é alguém que se diz cristão diante de Deus, mas que no coração não deposita a fé em Jesus.
E vejam se não é a história da igreja o que as cinco virgens néscias foram fazer: comprar azeite. Quando nós olhamos para a Reforma e lembramos das indulgências na Idade Média, onde as pessoas supostamente compravam o perdão para si mesmas e para outras pessoas, até mesmo para os mortos. Hoje tanto se ouve quando você liga a televisão, o rádio ou vai em determinadas igrejas que nós também precisamos pagar pelo favor de Deus.
Gente, o combustível da fé não se compra, não se vende, não se empresta, não se dá, muito menos se merece. O combustível da fé é pura graça de Deus.
Por isso a importância dos cultos, da Santa Ceia, da leitura da Bíblia: primeiro para sermos fortalecidos nesta fé, o que nos mantém preparados; segundo para não nos deixarmos levar por este pessoal que, muitas vezes, faz uso da sua posição e até da palavra de Deus para dizer o que Deus não disse.
Mas, se tudo depende de Deus, por que aquelas cinco virgens não tinham um estoque maior? Deus não queria que elas entrassem na festa? Não é isso. Elas não permitiram a ação de Deus à medida que estavam seguras em si mesmas. Não estavam nem preocupadas com a chegada do noivo.
As outras cinco esperaram em Deus. Confiaram em Deus. Não olharam para si mesmas. Sim, elas também dormiram. Mas muitas são às vezes em que nós também dormimos enquanto aguardamos a vinda do noivo. Quando, por exemplo, olhamos mais para nós mesmos, para as nossas obras ou para os nossos interesses e deixamos de lado a vontade de Deus e as obras de Deus.
Porém este dormir pode se referir não só ao agora, quando “dormimos no ponto”, mas também à morte. E o texto, assim, nos deixa claro que depois da morte não há mais o que fazer. Os estabelecimentos onde se reabastece a fé estarão fechados e quem não tiver azeite no estoque, não entra na festa. Você por acaso sabe quando vai morrer?
Aqueles que estavam muito seguros da salvação pode ser que tenham uma grande surpresa. Isto não quer dizer que não podemos ter certeza da salvação. Pelo contrário, devemos ter esta certeza mesmo que o diabo nos venha dizer o contrário! Mas sempre olhando para Jesus, nunca para nós mesmos.
Por fim, isso tudo faz lembrar uma história, e é verídica, de um soldado que estava de guarda no quartel e dormiu. E não é que um sargento foi lá e o encontrou dormindo? Mas ele não disse nada, só pegou o seu fuzil. Depois, quando o soldado acordou, viu que estava sem fuzil e foi, desesperado, dizer justamente àquele sargento: você não vai acreditar, roubaram o meu fuzil. E o resto vocês já podem imaginar.
Como é importante estar preparado! Se para as coisas terrenas e passageiras já precisamos estar preparados, quanto mais para o futuro eterno na presença de Deus. O soldado além de dormir perdeu o fuzil. Que quando nós dormirmos, não estejamos sem a nossa arma: a fé em Jesus. Como estar preparado? O apóstolo Paulo responde: “Crê no Senhor Jesus e serás salvo”. Amém.

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Mensagem 21º dom. após Pentecostes A 2014



Igreja Evangélica Luterana Cristo – Juína
Pr. Edenilson Gass
Sl 43; Mq 3.5-12; 1Ts 4.1-12; Mt 23.1-12 – 21º dom. após Pentecostes A 2014
Pregamos e vivemos a Palavra de Deus
v. 8: “Vós, porém, não sereis chamados mestres, porque um só é vosso Mestre, e vós todos sois irmãos”.
Outubro foi um mês de muitas datas. Dentre elas, datas importantes para nós luteranos: A Reforma no dia 31; os 111 anos do Seminário no dia 27. E também lembramos o dia do professor, no dia 15. Estes que, assim como Lutero fez e o Seminário faz, se dedicam ao ensino daquilo que é importante para a nossa vida.
Com certeza, cada um de nós tem para si o seu mestre. Aquela pessoa que você admira muito. Pode ser o pai ou a mãe; pode ser um professor da escola ou da faculdade; ou mesmo pode ser uma pessoa simples, mas que tem sabedoria para lidar com as mais diversas situações da vida. O fato é que cada um tem o seu mestre.
Mas será que isso não vai contra o ensinamento de Jesus que nós lemos há pouco: “Vós, porém, não sereis chamados mestres, porque um só é vosso mestre”? Como nós entendemos esse texto? O que Jesus quer nos ensinar?
Esse é um típico texto em que nós precisamos começar do começo. Jesus estava falando de homens que se consideravam e eram considerados pelas pessoas mestres. E estes são os escribas e os fariseus.
Por isso é interessante notar que logo antes disso Jesus teve uma conversa com os fariseus onde estes, mais uma vez, tentaram armar uma cilada para Jesus e se deram mal. Porque Jesus fez uma pergunta aos fariseus sobre o Antigo Testamento e eles, que se consideravam mestres das Escrituras, não souberam responder.
E é aí que Mateus dá início a este novo bloco onde ele diz que Jesus começa a falar à multidão e aos seus discípulos. Este, muito provavelmente, é o relato onde Jesus fala da forma mais dura a respeito dos fariseus. E o que ele acusa nos fariseus é a sua hipocrisia.
O fato de eles não viverem uma vida condizente com aquilo que ensinavam e exigiam das pessoas. Jesus diz que eles colocavam fardos enormes sobre as pessoas. Mas esses fardos que eles colocavam pela pregação das Escrituras eles mesmos não queriam carregar nem com um dedo.
Para muita gente isso é motivo para não prestar atenção à mensagem do pastor ou mesmo não participar mais dos cultos. Quantas vezes a gente já ouviu de cristãos que abandonaram a igreja porque “não se identificaram” com o pastor? Ou, se ainda participam, ficam só procurando os defeitos.
Agora, será que Jesus concordaria com uma pessoa que age assim? Que deixa de ouvir a Palavra de Deus só porque ela tem um problema com o pastor?
Vejam que Jesus diz aqui – aliás, antes da bronca aos fariseus – que os escribas e os fariseus estavam sentados na cadeira de Moisés. E a pergunta que, naturalmente, fazemos é: “quem os colocou lá”? Ora, Deus os colocou lá. Porque Deus não permite que alguém assuma o poder a não ser que ele queira.
E Jesus deixa bem claro o que Deus esperava daquele povo diante do que os fariseus ensinavam: “Fazei e guardai, pois, tudo quanto eles vos disserem, porém não os imiteis nas suas obras; porque dizem e não fazem”.
Apesar do ensino dos fariseus sobre o Antigo Testamento ser insuficiente e, às vezes, equivocado; e apesar de eles próprios não fazerem aquilo que ensinavam, Deus os mantinha lá para que a sua Palavra fosse anunciada ao povo. A cadeira de Moisés não é nada menos do que o Ministério Pastoral.
Em outras palavras, o que Jesus disse foi o seguinte: Enquanto eles estiverem anunciando a Palavra de Deus (como lhes cabe fazer) vocês devem ouvir e obedecer. E se o problema está naquilo que eles fazem ou deixam de fazer, então ignorem o tipo de pessoa que eles são e olhem para eles apenas no seu ofício que é serem representantes de Deus pela pregação da sua Palavra.
E o mesmo é válido para nós. Pastores não são super-homens nem seres superiores, e sim seres humanos falhos e pecadores como qualquer um. Mas se estão anunciando a Palavra de Deus (como lhes cabe fazer) devemos ouvi-los e obedecer-lhes. Não por eles, mas por causa daquele a quem anunciam e que os colocou neste ofício. E este é Jesus.
Se o pastor vive de acordo com o que ensina, ótimo, pois as Escrituras pedem isso dele. Porém, mesmo que a coisa não seja bem assim, enquanto pregadores da Palavra de Deus, devemos honrá-los e ajuda-los, pois é o que as Escrituras pedem de todos nós como cristãos.
E a coisa acontece assim de tal forma que se rejeitamos a pregação, rejeitamos não o pastor, mas o próprio Cristo que vem a nós na mensagem e, certamente, ele nos rejeitará no último dia. E se acolhemos a pregação, não é para o pastor que a acolhemos, e sim para que, por meio da pregação da Palavra de Deus, nós recebamos a Cristo e junto com ele a vida eterna.
O mal dos fariseus não era anunciar a Palavra de Deus de forma dura – como, muitas vezes, ela é. O fardo que eles colocavam sobre as pessoas não vinha deles, vinha da Lei de Deus. E essa é pesada. Essa ninguém suporta.
O mal dos fariseus era não fazer isso pensando no bem e na salvação das pessoas, mas no seu próprio reconhecimento e mérito. Porque quanto mais eles exigiam das pessoas, mais santos eles pareciam ser.
E nós precisamos ter esta consciência também. Saber que do púlpito não se anuncia outra coisa que não seja a Palavra de Deus. E esta Palavra sempre vem para trazer salvação, mesmo que, por vezes, esta Palavra seja tão dura que nós sejamos tentados a reclamar do pregador.
Seja como for, com tudo isso Jesus mostra como as coisas devem funcionar na igreja para que a igreja funcione. A coisa não é assim: O pastor [no topo], a diretoria [no meio] e a congregação [em baixo]. Mas o pastor, a diretoria e a congregação, todos lado a lado com o mesmo objetivo de continuar anunciando a Palavra de Deus.
Por isso, é evidente que não tem problema nenhum se admiramos esta ou aquela pessoa. Até porque, na maioria das vezes, essas são pessoas que merecem o nosso reconhecimento.
Porém, o que Jesus quer lembrar é que, diante de Deus, estamos todos lado a lado. Somos irmãos. Jesus é o Mestre. Podemos ter funções diferentes, capacidades diferentes como, de fato, temos. Somos pastor, diretoria e congregação, cada qual com suas responsabilidades. Porém um mesmo propósito: Manter a pregação da Palavra de Deus tanto aqui como lá fora.
Porque esta é a vontade de Deus: continuar usando pessoas falhas e pecadoras para anunciar a sua Palavra. Falhas para que a glória seja dada a Deus e não a nós. E pecadoras para que saibam falar como é bom ser alguém perdoado por Deus.
“Vós, porém...” diz Jesus, diferente dos fariseus, não serão orgulhosos. Pelo contrário, terão um coração voluntário para se colocar debaixo do próximo para o ajudar na sua fraqueza, no seu sofrimento e no seu pecado. Sendo, não juízes, mas servos uns dos outros.
Outubro, mês de datas importantes das quais lembramos o dia do professor. É com razão que somos gratos aos nossos mestres que se dedicam ao ensino, pois devemos muito a eles. Mas, com certeza, mais gratos ainda somos a Jesus, o Mestre de todos nós que, no ensinar e viver, nos ensinou sobre o amor e a misericórdia de Deus. E, pela pregação das Escrituras, nos ensina e mantém no caminho da salvação. Amém.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Mensagem culto comemorativo da Reforma Luterana



Igreja Evangélica Luterana Cristo – Juína
Pr. Edenilson Gass
Sl 46; Ap 14.6-7; Rm 3.19-28; Jo 8.31-36 – Reforma 2014
A verdade que nos torna livres
v. 32: “E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”.
Neste culto festivo, quando comemoramos os 497 anos da Reforma Luterana firmada por Martinho Lutero em 31 de outubro de 1517, é evidente que não poderíamos deixar de lembra-lo. Por outro lado, também não podemos falar só de Lutero e deixar de lado a Palavra de Deus.
E foi tentando unir as duas coisas que eu lembrei deste livrinho escrito por Martinho Lutero. O título é “Do Cativeiro Babilônico da Igreja”. E antes de qualquer coisa, é importante que a gente entenda porque tem esse título.
A ideia de Lutero vem daquele episódio do Antigo Testamento onde o povo de Judá foi atacado pelos babilônicos e foi levado como escravo para a Babilônia. Com isso os judeus, que antes eram livres na terra de Canaã passaram a ser escravos. A sua situação era de cativeiro. E daí o título que Lutero escolhe para este seu livro: “Do Cativeiro Babilônico da Igreja”.
Mas neste livro Lutero não quer falar da história do cativeiro babilônico, e sim, lembrando aquele episódio, falar contra alguns abusos que vinham acontecendo dentro da Igreja da sua época que estavam aprisionando, escravizando o coração, a mente e a consciência das pessoas.
Lutero aponta para várias coisas que precisavam ser reformadas, como também o faz em outros livros. E dentre estas tantas coisas hoje nós queremos pensar especialmente sobre três que estão sempre muito próximas de nós: o Batismo, a Santa Ceia e o culto público.
Em primeiro lugar, o batismo chegou ao ponto de ser visto e realizado como sendo nada mais do que um costume da Igreja. As pessoas nem sabiam mais ao certo porque levavam as crianças para serem batizadas.
E aí entra o primeiro cativeiro, a primeira forma de colocar um jugo sobre as pessoas: o batismo não era entendido como algo que nos liga a Deus, mas que nos liga à igreja. Para que por causa da igreja, através da igreja nós tenhamos acesso a Deus. Em outras palavras, o intermediário entre o homem e Deus já não é Cristo, mas a igreja.
Hoje, em muitas realidades, a coisa não é muito diferente. O batismo continua sendo realizado. Pais continuam levando seus recém-nascidos à pia batismal. E que bom! Que continuem levando. Mas melhor ainda seria se as pessoas realmente soubessem o que elas estão fazendo ao levar uma criança para ser batizada.
E neste ponto Lutero começa muito bem. Ele diz que em primeiro lugar nós devemos olhar para a promessa divina que está por trás do batismo: “Quem crer e for batizado será salvo”. (Está lá no finalzinho de Marcos) O batismo traz salvação. O batismo traz vida eterna.
E se o batismo concede salvação, é evidente que muita coisa vem junto. É como se fosse um pacote onde nós recebemos, já antes do céu, o perdão, a fé e a adoção como filhos de Deus.
No batismo Deus nos leva para dentro da sua casa. Fazemos parte da sua família e isso nos garante que estaremos sempre com ele. Conforme Jesus diz no texto de hoje: o escravo não fica para sempre em casa, mas o filho sim. Porque o filho nunca deixa de ser filho.
E a prova de que tudo isso é verdade, Lutero diz que é a nossa vida. Se existe luta contra o pecado, contra o velho homem, a nossa própria natureza pecaminosa, isso tudo é porque no batismo fomos feitos uma nova criatura que agora vive não para si mesmo, mas para o seu redentor.
É isso que diz o apóstolo Paulo em Rm 6.4, que no batismo a maldade humana é afogada pela água e passamos a ser nova criatura: “Fomos, pois, sepultados com ele na morte pelo batismo; para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai, assim também andemos nós em novidade de vida”.
E Lutero diz ainda o seguinte: “Por isso compreenderás que tudo o que fizermos nessa vida para servir à mortificação da carne e à vivificação do espírito diz respeito ao Batismo”. Um único e simples ato, o batismo, nos livra do poder da morte, do pecado e do diabo.
O segundo cativeiro nós temos na Santa Ceia, quando as pessoas entendiam que elas precisavam da permissão da igreja para participar da Santa Ceia. Então eu preciso primeiro me confessar ao padre para que ele faça uma ou mais orações e isso me habilite a tomar a Santa Ceia.
Vamos entender bem isso. Não que tenha algo de errado em confessar ao nosso pastor aquilo que nos pesa no coração. E com certeza se as pessoas desabafassem mais, sofreriam menos. Mas o ponto é o seguinte: não é o pastor quem nos permite ou nos proíbe o participar da Santa Ceia. E sim a nossa fé e a nossa consciência diante de Deus.
Outra coisa interessante também é que nos dias de Lutero apenas a hóstia era distribuída aos fiéis. E a justificativa se resumia a uma frase simples: onde há corpo, há sangue. Infelizmente, a razão parecia ser outra: a Igreja havia se corrompido de tal forma que tinha se tornado uma máquina de acumular dinheiro. E não dar vinho aos fiéis também era uma forma de economizar.
Da mesma forma como quanto ao batismo, certas coisas não mudaram. Ainda hoje, em muitas igrejas, os comungantes recebem apenas o pão. Em outras, a Santa Ceia não acontece em todos os cultos. Mas a pergunta que fica é: Na Santa Ceia, eu preciso tomar o vinho, ou a hóstia já é o suficiente?
“Onde há corpo, há sangue”. Sim, é verdade. Tanto é que um doente ou alguém que toma remédio e não pode ingerir bebida alcoólica pode participar da Santa Ceia, mas vai comer só o pão e não vai ser menos fortalecido por causa disto. No entanto, será que não devemos levar em conta o modo como Jesus instituiu a Santa Ceia? A forma como ele realizou a primeira Santa Ceia?
Claro que sim! Jesus não disse apenas “tomai e comei, isto é o meu corpo” ou “tomai e bebei, isto é o meu sangue”, mas as duas coisas. O corpo que sofreu e morreu em lugar dos pecadores. O sangue suado no Getsêmani, vertido na cruz do Calvário em lugar dos pecadores. É isto que Cristo oferece na Santa Ceia.
Na Santa Ceia nós literalmente comemos, mastigamos e degustamos o sabor do perdão e do amor de Deus. Na Santa Ceia Deus nos serve com um banquete espiritual que nos prepara para o grande banquete que dele receberemos no céu.
Por isso as palavras da nossa liturgia que seguem após a Santa Ceia são as do cântico de Simeão: “Senhor, agora despedes em paz o teu servo... porque os meus olhos já viram a tua salvação”. Isso não significa que depois da Santa Ceia eu já posso ir embora, mas muito mais do que isso, eu posso morrer em paz, na certeza da salvação.
Em terceiro lugar, o culto divino estava sendo negado ao povo de Deus. No tempo de Lutero, se entendia que o culto é um sacrifício que nós realizamos ao nosso Deus. E mesmo o culto sendo realizado em latim, e o povo não entendendo nada do que os padres e bispos falavam, depositavam a confiança da sua salvação no simples fato de irem à igreja.
Na verdade, isso nem parece coisa da Idade Média. Quanta gente hoje ainda pensa que o culto é um sacrifício a Deus. E vão ao culto de má vontade porque pensam que estão só cumprindo com uma obrigação. Há também os que vão no culto, mas não participam efetivamente nos hinos, nas orações. Refletindo, prestando à atenção.
E não raramente se ouve dizer: ah! Mas eu faço a minha parte. Eu vou no culto, eu faço a minha oferta. E caem no grande pecado de depositarem nas suas ações a certeza da sua salvação. Conforme diz Lutero: “O que devem receber como benefício, ofereceram a Deus”. Como se o culto fosse uma obra humana. E, assim, mesmo livres, escravizam a si mesmos.
O culto não é um sacrifício. O sacrifício que era necessário já foi realizado. Cristo se fez sacrifício por nós. E o culto é o momento em que Deus vem até nós e nos supre com todas as bênçãos, dádivas e dons que o sacrifício de Cristo nos concede.
O cristão não precisa carregar em seus ombros o peso de leis e mandamentos porque toda a Lei e todos os mandamentos Jesus cumpriu em nosso lugar. Não somos mais cativos, não somos escravos do poder que o pecado, a morte e o diabo tinham sobre nós.
Agora somos livres e nesta liberdade podemos servir ao nosso Deus com o coração, a mente e a consciência tranquilos de que Deus já nos amou em Cristo e nos aceita mesmo na nossa imperfeição. E, principalmente, somos livres para receber de Deus tudo aquilo que ele nos oferece. Porque conhecemos a Cristo, ele que é a verdade que nos liberta. Amém.